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06/07/2026 | 6 min de leitura
Por Rodrigo Santos, coordenador do Centro de Gramados Esportivos e Inovação da Itograss

Quando pensamos em uma Copa do Mundo, é natural que as atenções estejam voltadas para os craques, os treinadores e as seleções favoritas. Mas existe um elemento fundamental para a qualidade do espetáculo que muitas vezes passa despercebido pelo grande público: o gramado.
A Copa do Mundo de 2026, que está sendo realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, apresenta um cenário interessante sob esse aspecto. Um dos pontos centrais foi a conversão de oito estádios que normalmente utilizam gramado sintético para superfícies naturais exigidas pela FIFA. Em muitos casos, foi necessário instalar sistemas temporários completos de drenagem, ventilação e irrigação antes da colocação da grama.
A solução escolhida combina grama natural com fibras sintéticas costuradas ao solo. Essas fibras funcionam como uma espécie de reforço estrutural: as raízes se entrelaçam nelas, aumentando a estabilidade do campo, reduzindo a formação de buracos e melhorando a resistência ao desgaste. Nesses gramados híbridos, as fibras sintéticas podem corresponder no máximo a 10% do campo, deixando claro que a grama natural continua prevalecendo.
A preparação começou há cerca de cinco anos e envolveu pesquisadores de universidades como a Michigan State University e a University of Tennessee. Os especialistas testaram espécies, misturas de sementes e sistemas de reforço para encontrar uma superfície que suportasse até nove partidas em apenas seis semanas sem perda significativa de qualidade.
Um detalhe interessante em tudo isso é que a FIFA busca algo quase imperceptível para o público: que a bola role, quique e desacelere da mesma forma nos 16 estádios, nos três países. O objetivo é eliminar ao máximo a influência do gramado sobre o desempenho das equipes, permitindo que as partidas sejam decididas pela qualidade técnica dos jogadores e não pelas características do campo.
De forma geral, os estádios utilizam basicamente duas famílias de gramas. A primeira é formada pelas variedades de clima temperado, conhecidas como Bluegrass. A segunda reúne as Bermudas, espécies adaptadas a climas mais quentes e amplamente utilizadas em regiões tropicais.
CURIOSIDADES DA NORTHBRIDGE
Na família das Bermudas temos a NorthBridge, que é utilizada, por exemplo, no Akron Stadium, Casa do Chivas Guadalajara, no México, uma das sedes do Mundial. Trata-se de uma variedade desenvolvida para suportar uso intenso e manter uma aparência de alta qualidade. Muito utilizada em estádios e campos de golfe, ela se destaca por crescer rapidamente, resistir bem ao frio e voltar a ficar verde antes de outras gramas após períodos de dormência. Sua superfície é densa, com folhas finas e coloração verde-viva, proporcionando um visual uniforme e agradável. Além disso, apresenta alta resistência ao desgaste causado pelo pisoteio e pela prática esportiva, recuperando-se rapidamente de danos. Também possui boa tolerância à seca, à salinidade e a áreas com sombra moderada, além de resistência a algumas das principais doenças que afetam os gramados esportivos.
Saindo da particularidade da grama e indo para o contexto geral do futebol, vale citar que a FIFA desenvolveu ao longo dos últimos anos protocolos rigorosos para reduzir as diferenças entre os gramados nas grandes competições. O programa Quality Pro estabelece parâmetros que buscam oferecer uma experiência de jogo o mais uniforme possível. Entre os indicadores monitorados estão a umidade do solo, a dureza da superfície, a densidade do gramado e a altura de corte.
O que muita gente não sabe é que a produção de um gramado esportivo de padrão internacional pode levar entre 12 e 18 meses, período necessário para que a planta desenvolva uma estrutura radicular robusta, capaz de suportar o intenso desgaste provocado por treinos, jogos e eventos realizados nos estádios. E todo gramado nasce em uma fazenda e, só depois de pronto, é transferido para as arenas.

Outra curiosidade é a Sod Grown on Plastic (SOP), que está presente em 14 dos 16 estádios que recebem a Copa, incluindo o MetLife Stadium, nos Estados Unidos, palco da final. Trata-se de uma tecnologia de gramado natural cultivado sobre uma base arenosa e uma camada impermeável e que tem sido adotada em alguns dos projetos esportivos mais exigentes do mundo.
O método foi desenvolvido por Chad Price, sócio-fundador da Carolina Green, empresa norte-americana sediada na Carolina do Norte. No Brasil, a tecnologia foi lançada recentemente pela Itograss com o nome Play On Time. Entre seus diferenciais está a formação de um bloco radicular mais robusto e entrelaçado durante o desenvolvimento da grama, o que garante elevada integridade estrutural e excelente capacidade de drenagem, desde o cultivo na fazenda até a instalação definitiva no estádio.
Depois de todas essas informações, acredito que você passará a ver os gramados da Copa do Mundo de 2026 de uma maneira diferente. Não se trata apenas de um cenário onde o futebol acontece. Hoje, a grama é parte estratégica do espetáculo, influenciando desempenho, segurança dos atletas e qualidade técnica das partidas. Em um torneio decidido nos detalhes, entender o que acontece sob os pés dos jogadores pode ser tão interessante quanto acompanhar aquilo que acontece quando as seleções entram em ação.
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